ॐNamasteॐ

Em uma de minhas andanças até o local onde estudo, me deparei com uma cena - no mínimo - comovente. Eis aqui o meu relato sobre o que é a simplicidade do amor entre pais, filhos, irmãos. E de como não devemos julgar pela aparência e/ou cultura.
Era um casal simples, daqueles que não saltariam aos olhos na multidão.
Ela, o cabelo loiro pintado com tintura barata. Fora de forma pela falta de cuidado após ter dois filhos, talvez. Talvez por falta de dinheiro, de tempo, de conhecimento.
Ele, tatuagem no antebraço, camisa de time, um boné surrado.
Nos dois rostos, um só sorriso. Aconchegados confortavelmente em seus braços, brincando - os filhos.
Duas crianças gargalhavam enquanto o trem seguia viagem. A menina, pouco mais de um ano, cambaleava com o sacolejar característico do vagão. O menino, um pouco mais velho, era mais ágil. Brincavam.
Trocaram de colo algumas vezes, ora ela no colo da mãe, ora ele também - e o pai sempre segurava com carinho um dos dois.
Súbito, a pequenina sem querer machuca o irmão com o brinquedo que levava na mão.
Aqui faço uma pausa.
Naquele lugar simples, de gente com pouca Educação, péssimas condições e supostamente aquele humor de quem vive no sofrimento, você esperaria berros, violência, choro esbaforido, incontido... pois é, não julgue.
A menina, tímida, vê que machucou o irmãozinho. Mas ela não sabe falar ainda.
A mãe, com ternura, faz as vezes da sua voz, dizendo "Me desculpa... é que eu sou desajeitada."
O menino, ainda massageando com a mão tão pequena o corpo dolorido, de repente deixa de lado o que aconteceu e abraça longamente a irmã.
Naquele perdão silencioso, um gesto simplório... havia muito mais do que um pedido de desculpas. Havia o amor entre dois irmãos que se comunicavam à maneira das crianças, muitas vezes mais eloqüentes do que nós, que nos esquecemos talvez da pureza que carregávamos nessa época em nosso semblante.
Os pais? Serenos, avisaram que havia chegado a hora de descer. O pai pega a menina no colo, o menino espera pacientemente a mãe arrumar a bolsa e guardar o brinquedo da menina, e só então estende os braços para abraçá-la e saírem do trem.
Sorri, maravilhado. E fui abençoado com uma dádiva rara: aquele ser que mal andava e mal falava, me sorriu de volta e disse tudo. Seu pai, orgulhoso, diz: "Dá tchau pro moço, filha".
E ela acena, saindo do trem segura pelos braços do pai, até me perder de vista.
Nem sempre títulos, anos de estudo e conforto financeiro significam amor, paz, prosperidade. Aquele casal tão pobre, de uma região afastada da cidade de São Paulo, me ensinou que o amor entre pais e filhos, entre irmãos, e a educação adquirida durante a criação são independentes do quanto se ganhe, do quanto se estude, de que música se ouça, de quantas vezes você já viajou para fora do país ou algo do gênero. Vivemos em um Mundo onde esqueceu-se da busca da sabedoria, e onde as pessoas desenvolvem seu intelecto, o que sem dúvida é importante; mas se esquecem de que inteligência sem sabedoria é arrogância. O amor daqueles pais e a simplicidade daquelas crianças iluminou o meu dia. Aprendi mais um pouco sobre como julgar o menos possível - almejando um dia não julgar mais.
Às vezes as coisas mais belas encontram-se nas coisas mais simples... Sherlock Holmes diria: O vulgo não vê o óbvio... Mas a Lari também tem razão: é preciso ter uma grande sensibilidade para saber apreciar a beleza das coisas simples, mas profundas, que estão todo o tempo a nossa volta... Que bom que existem pessoas com esse dom - o dom de ver além. O mundo está cheio de pessoas que vêem, mas não enxergam, por isso é imprescindível lugares como seu Blog para ensinar aqueles que ainda não abriram, de fato, os olhos para o mundo.
ResponderExcluirParticularmente, há três coisas corriqueiras que me fascinam: a chuva, a Lua e os pássaros. Elas me encantam e me dão força... Não conheço nada de mais belo do que isso... Se bem que, você tem toda razão: o sorriso inocente de uma criança é um presente que nos ensina...
Parabéns pela postagem, e pela sorte de ter presenciado uma cena dessas - felizmente você soube lhe dar o devido valor.
Ótimo blog,
serei um leitor assíduo.
Grande abraço,
Holmes.